The Rolling Stones
Isto de escrever minutos depois de Portugal ser eliminado do Mundial não é tão fácil como possa parecer. Por um lado apetece dizer mal dos Espanhóis. Por outro lado não apetece. Nem são maus diabos, têm um País bonito e não têm culpa nenhuma do nosso melhor jogador só ter marcado um golo no Campeonato todo e sem saber muito bem como. Além disso em Espanha há as Espanholas. O que também não tem mal nenhum. Pois.
Portanto, escrever mal dos Espanhóis está fora de hipótese. Quanto a vocês não sei, por mim escrevo sobre uma prática desportiva muito em voga actualmente mas que passou perto de três décadas completamente esquecida: a corrida de carros de rolamentos. Ora, as corridas de carros de rolamentos (vou passar a escrever só CCR se não encho a página depressa demais…) têm algumas características ambientalmente interessantes e que me admira não serem mais copiadas. Por exemplo: tirando os ouvidos, uma CCR não polui. Aliás, hoje em dia uma CCR feita no tapete bom que existe nas nossas estradas quase nem os ouvidos polui. Há trinta anos não era assim. A estrada dos Netos era mais pedra que alcatrão e aquilo fazia uma barulheira desalmada. Naturalmente, esses pormenores não afectavam o piloto e muito menos o público. O azar tinha a ver com pormenores iminentemente técnicos e que resultavam de um facto muito simples: com calor, as CCR são mais emocionantes. O suor, o sangue nos joelhos e a roupa rasgada são muito melhor absorvidos se a corrida acontecer numa tarde de Julho ou Agosto, ali entre as duas e as quatro da tarde. Acontece que numa aldeia como os Netos, essa hora no Verão era geralmente ocupada pelos adultos a dormir a sesta. E aí residia um bloqueio, nitidamente cultural, de alguns dos residentes. Há gente ainda viva que nunca percebeu o privilégio de ter um grande prémio à porta, todas as santas tardes.
Também devido a esse bloqueio, a essa dificuldade persistente em entender a emoção das CCR, muitas CCR acabavam mais cedo que o previsto e bastas vezes se viram os carros a bater em retirada às costas dos pilotos, subvertendo por completo a lógica de qualquer competição automóvel. Outra característica notável das CCR é o facto de ser das poucas competições automóveis em que ser pesado é uma vantagem. Aliás, sendo directo e conciso, não havia ninguém que batesse um CR (Carro de Rolamentos…) com um bucha
Mas as CCR eram mais, muito mais. Os CR eram objectos de liberdade e afirmação individual. Qualquer pessoa podia conduzir um descapotável ruidoso de cabelos ao vento. Qualquer de nós podia ter um monolugar, bastando uma tábua, dois paus, uns pregos, um arame a fazer de volante e quadro rodinhas de metal. Naturalmente havia versões mais evoluídas, com travões e até bancos de Zundapp. Mas esses luxos não eram para todos e até mesmo um carpinteiro fracassado como eu conseguia ter um carro à maneira.
Mas deixei para o fim a maior vantagem das CCR. Já aqui disse que as CCR eram um fenómeno de popularidade. Entre gente a ralhar e cachopos a fugir, era uma festa como já não se fazem. Muita dessa alegria perdia-se a subir, claro, quando o carro tinha que ir às costas. Outras vezes era a enorme emoção de nos desviarmos a tempo de um carro a sério que aparecia em sentido contrário. Mas a maior vantagem das CCR, vistas com 30 anos de distância e num dia como hoje, é que nunca, mas nunca mesmo, lá vi um Espanhol.