Saíram de madrugada, entre imensos outros arrumados em bancos de autocarro, enlatados à velocidade legal. Não havia nomes nem números nem endereços de correio minimamente electrónico. Não havia nada além de progredir na noite, na manhã, no Sol que nasce. O serviço na área resumiu-se a urinóis apressados e cafés fugidios. Enlatados de novo.
O primeiro olhar acontece ao quilómetro 284. A1, há dois pares de olhos cansados que se beijam com mel à sombra de cortinas azuis. Fogem ambos. Ela fecha os dela e pensa no mel. Ele concentra-se, olha outra vez e depois parte a investigar potenciais colmeias. O segundo olhar foi servido em forma de lanche, com fiambre, manteiga e ice tea de limão. E mel. Deliciam-se a sete metros de distância. Ela baixa os olhos. Depois os óculos de sol e os olhos sobem de novo. Protegida por lentes castanhas banha-se nos lábios calados e nos olhos vivos. Ele assume e esquece todo o resto de todo o mel que possa existir em todo o mundo. Saboreiam-se até o fiambre acabar.
Quando entram no autocarro, ao final do lanche, sentem-se sozinhos na lata enorme. Não podem. O Verão não deve nem pode fazer isto. O calor não justifica. Que raio é uma viagem de finalistas, um grito de liberdade, cinco dias à solta, se antes do destino já se sentem presos a mel? Mel interdito, impróprio para consumo. Com sumo nos olhos sabem que a viagem acabou ali, quando se beberam pelo simples pecado de olhar.
Tão diferente: ela quere-o, ele deseja-a. Fazem contas de cabeça porque não contavam com isto. Anoitecem enlatados mas ainda sozinhos. Pensam. Alarvemente se saboreiam, algarvemente chegam ao destino.
A segunda manhã começa quando a manhã acaba. Quartos partilhados, bocejos longos e braços no ar pela vitória do sono. Olham-se de novo. Ela virgem, de vermelho, seios ligeiros lançados frente a todos em água morna. Ele de calções pelo joelho, perdido em futebóis misturados com areia chapéus-de-sol. Riem. Cada um na sua festa geral, partilhada por todos, felizes ignorantes dos olhares de mel. Riem mais. Olham-se de novo. Param de rir. Os seios ligeiros vermelhos molhados deixam a água mais pobre. Não são para todos. Seca-se com a paciência do Sol e espera por ele. Ele não vem, mergulhado em remates de bicicleta, bicicletas de montanha, montanhas de gente. Ignora que o espaço vazio na toalha vermelha, além, por baixo dos seios, lhe é destinado. Ignora que ela arrisca pelo mel tudo o que deixou
O jantar deixa-se grelhar à vista de todos. Sorrisos gritantes, camisas às flores, barrigas de Inverno e carrosséis estridentemente enferrujados enchem a rua de encontros e cruzamentos entroncados numa azáfama geral, como se as férias tivessem saído quando o Sol se quis pôr. Juntam-se no churrasco comunitário. Sem fome, sem pressa. Só sede. Saciam-se no olhar cruzado, entre fumo com cheiro a carne queimada e brincadeiras adolescentes espalhadas pelo jardim. A salada crua mistura-se com a carne feita castanha. Tomates deixam-se entrelaçar por pimentos assados. Seven up primeiro, after Eight depois. Acaba o jantar.
Despida do vermelho, olha-o e guia-o para o paredão, a perder as vistas no mar. Lá se dirige, lá o espera. Ele vê. Ele vai.
O mar enrola na areia. Ninguém sabe. O que ele diz quando chega é um murmúrio ligeiro que ela nem tenta perceber. Os homens falam de mais. Olham-se e perdem-se de novo. Embebedam-se de mel e encostam-se. Como quem se encosta a um pilar, sem esperar um abraço de troco. O mar vigia, o mel também.