sexta-feira, 2 de julho de 2010

Muse

Saíram de madrugada, entre imensos outros arrumados em bancos de autocarro, enlatados à velocidade legal. Não havia nomes nem números nem endereços de correio minimamente electrónico. Não havia nada além de progredir na noite, na manhã, no Sol que nasce. O serviço na área resumiu-se a urinóis apressados e cafés fugidios. Enlatados de novo.

O primeiro olhar acontece ao quilómetro 284. A1, há dois pares de olhos cansados que se beijam com mel à sombra de cortinas azuis. Fogem ambos. Ela fecha os dela e pensa no mel. Ele concentra-se, olha outra vez e depois parte a investigar potenciais colmeias. O segundo olhar foi servido em forma de lanche, com fiambre, manteiga e ice tea de limão. E mel. Deliciam-se a sete metros de distância. Ela baixa os olhos. Depois os óculos de sol e os olhos sobem de novo. Protegida por lentes castanhas banha-se nos lábios calados e nos olhos vivos. Ele assume e esquece todo o resto de todo o mel que possa existir em todo o mundo. Saboreiam-se até o fiambre acabar.

Quando entram no autocarro, ao final do lanche, sentem-se sozinhos na lata enorme. Não podem. O Verão não deve nem pode fazer isto. O calor não justifica. Que raio é uma viagem de finalistas, um grito de liberdade, cinco dias à solta, se antes do destino já se sentem presos a mel? Mel interdito, impróprio para consumo. Com sumo nos olhos sabem que a viagem acabou ali, quando se beberam pelo simples pecado de olhar.

Tão diferente: ela quere-o, ele deseja-a. Fazem contas de cabeça porque não contavam com isto. Anoitecem enlatados mas ainda sozinhos. Pensam. Alarvemente se saboreiam, algarvemente chegam ao destino.

A segunda manhã começa quando a manhã acaba. Quartos partilhados, bocejos longos e braços no ar pela vitória do sono. Olham-se de novo. Ela virgem, de vermelho, seios ligeiros lançados frente a todos em água morna. Ele de calções pelo joelho, perdido em futebóis misturados com areia chapéus-de-sol. Riem. Cada um na sua festa geral, partilhada por todos, felizes ignorantes dos olhares de mel. Riem mais. Olham-se de novo. Param de rir. Os seios ligeiros vermelhos molhados deixam a água mais pobre. Não são para todos. Seca-se com a paciência do Sol e espera por ele. Ele não vem, mergulhado em remates de bicicleta, bicicletas de montanha, montanhas de gente. Ignora que o espaço vazio na toalha vermelha, além, por baixo dos seios, lhe é destinado. Ignora que ela arrisca pelo mel tudo o que deixou em casa. Espera por ele. Ele não vai. Faz-se tarde. Entardece.

O jantar deixa-se grelhar à vista de todos. Sorrisos gritantes, camisas às flores, barrigas de Inverno e carrosséis estridentemente enferrujados enchem a rua de encontros e cruzamentos entroncados numa azáfama geral, como se as férias tivessem saído quando o Sol se quis pôr. Juntam-se no churrasco comunitário. Sem fome, sem pressa. Só sede. Saciam-se no olhar cruzado, entre fumo com cheiro a carne queimada e brincadeiras adolescentes espalhadas pelo jardim. A salada crua mistura-se com a carne feita castanha. Tomates deixam-se entrelaçar por pimentos assados. Seven up primeiro, after Eight depois. Acaba o jantar.

Despida do vermelho, olha-o e guia-o para o paredão, a perder as vistas no mar. Lá se dirige, lá o espera. Ele vê. Ele vai.

O mar enrola na areia. Ninguém sabe. O que ele diz quando chega é um murmúrio ligeiro que ela nem tenta perceber. Os homens falam de mais. Olham-se e perdem-se de novo. Embebedam-se de mel e encostam-se. Como quem se encosta a um pilar, sem esperar um abraço de troco. O mar vigia, o mel também.

terça-feira, 29 de junho de 2010

The Rolling Stones

The Rolling Stones

Isto de escrever minutos depois de Portugal ser eliminado do Mundial não é tão fácil como possa parecer. Por um lado apetece dizer mal dos Espanhóis. Por outro lado não apetece. Nem são maus diabos, têm um País bonito e não têm culpa nenhuma do nosso melhor jogador só ter marcado um golo no Campeonato todo e sem saber muito bem como. Além disso em Espanha há as Espanholas. O que também não tem mal nenhum. Pois.

Portanto, escrever mal dos Espanhóis está fora de hipótese. Quanto a vocês não sei, por mim escrevo sobre uma prática desportiva muito em voga actualmente mas que passou perto de três décadas completamente esquecida: a corrida de carros de rolamentos. Ora, as corridas de carros de rolamentos (vou passar a escrever só CCR se não encho a página depressa demais…) têm algumas características ambientalmente interessantes e que me admira não serem mais copiadas. Por exemplo: tirando os ouvidos, uma CCR não polui. Aliás, hoje em dia uma CCR feita no tapete bom que existe nas nossas estradas quase nem os ouvidos polui. Há trinta anos não era assim. A estrada dos Netos era mais pedra que alcatrão e aquilo fazia uma barulheira desalmada. Naturalmente, esses pormenores não afectavam o piloto e muito menos o público. O azar tinha a ver com pormenores iminentemente técnicos e que resultavam de um facto muito simples: com calor, as CCR são mais emocionantes. O suor, o sangue nos joelhos e a roupa rasgada são muito melhor absorvidos se a corrida acontecer numa tarde de Julho ou Agosto, ali entre as duas e as quatro da tarde. Acontece que numa aldeia como os Netos, essa hora no Verão era geralmente ocupada pelos adultos a dormir a sesta. E aí residia um bloqueio, nitidamente cultural, de alguns dos residentes. Há gente ainda viva que nunca percebeu o privilégio de ter um grande prémio à porta, todas as santas tardes.

Também devido a esse bloqueio, a essa dificuldade persistente em entender a emoção das CCR, muitas CCR acabavam mais cedo que o previsto e bastas vezes se viram os carros a bater em retirada às costas dos pilotos, subvertendo por completo a lógica de qualquer competição automóvel. Outra característica notável das CCR é o facto de ser das poucas competições automóveis em que ser pesado é uma vantagem. Aliás, sendo directo e conciso, não havia ninguém que batesse um CR (Carro de Rolamentos…) com um bucha em cima. Ora, acontece que nos Netos a malta era elegante. Basicamente, qualquer cidadão dos Netos, há trinta anos, na respeitável faixa etária dos seis aos dez, era basicamente pele e osso. Havia portanto que apostar no tamanho das rodas ou qualquer tentativa de performance minimamente honrosa ficava condicionada à partida. De qualquer forma, o que há trinta anos era uma forte condicionante é hoje um ponto forte e apresenta possibilidades imensas em termos de melhoria de certas auto-estimas: “Sente que tem uns quilitos a mais? Sabe que o fato de banho vermelho está lá mas só o consegue ver em frente ao espelho? Não desanime. Desafie as amigas elegantes para uma CCR e vai ver como se sente melhor.” Fica a sugestão.

Mas as CCR eram mais, muito mais. Os CR eram objectos de liberdade e afirmação individual. Qualquer pessoa podia conduzir um descapotável ruidoso de cabelos ao vento. Qualquer de nós podia ter um monolugar, bastando uma tábua, dois paus, uns pregos, um arame a fazer de volante e quadro rodinhas de metal. Naturalmente havia versões mais evoluídas, com travões e até bancos de Zundapp. Mas esses luxos não eram para todos e até mesmo um carpinteiro fracassado como eu conseguia ter um carro à maneira.

Mas deixei para o fim a maior vantagem das CCR. Já aqui disse que as CCR eram um fenómeno de popularidade. Entre gente a ralhar e cachopos a fugir, era uma festa como já não se fazem. Muita dessa alegria perdia-se a subir, claro, quando o carro tinha que ir às costas. Outras vezes era a enorme emoção de nos desviarmos a tempo de um carro a sério que aparecia em sentido contrário. Mas a maior vantagem das CCR, vistas com 30 anos de distância e num dia como hoje, é que nunca, mas nunca mesmo, lá vi um Espanhol.